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História da fotografia 2 – A evolução no último século

História da fotografia 2 – A evolução no último século

História da fotografia – Evolução das máquina fotográfica

A história da máquina fotográfica é indissociável da história fotografia como, aliás, seria expectável, facto esse oportunamente por nós demonstrado no artigo de retrospectiva já aqui publicado. Caso ainda não tenha lido essa breve contextualização histórica sugerimos-lhe que o faça antes de avançar para a leitura do corrente sumário sobre a história da fotografia e das máquinas fotográficas.

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Pioneiros e percursores da máquina fotográfica

Os momentos iniciais do percurso fotográfico foram – como sempre é o começo de algo novo – ideais para a experimentação aventureira daqueles que desde logo abraçaram o desafio da captação da imagem fixa. Neste grupo de pioneiros incluem-se Aristóteles, Ângelo Sala, Johann Henrich Schulze, Carl Wilhelm Scheele, Joseph-Nicéphore Niépce, Louis-Jacques Mandé Daguerre, Joseph Petzval (Josef Maximilian Petzval, em alemão), Friedrich Voigtländer, William Henry Fox Talbot, Frederick Scott Archer e Richard Leach Maddox, visionários que em muito contribuíram para a história da fotografia e, directa ou indirectamente, da máquina fotográfica.

Baseadas nos princípios da câmara escura, método cuja origem exacta se desconhece, foi no século IV a.C., mais especificamente no ano de 350 a.C. e pelas mãos de Aristóteles, que ganharam forma os esboços rudimentares do que viriam a ser as câmaras fotográficas. Contudo, terá sido das mentes de Niepce, Daguerre e Talbot que nasceram os primeiros engenhos fotográficos capazes de serem facilmente transportados e, portanto, mais práticos de usar.

Apoiados numa construção de duas caixas rectangulares de madeira que se movimentavam entre si, aproximando-se ou afastando-se na busca do ponto de focagem ideal para a imagem a capturar, os dispositivos fixavam o assunto capturado em placas concebidas para o efeito após a recepção da luz projectada através do orifício frontal possuidor de um sistema básico de controlo da intensidade de claridade (hoje em dia controlado pela iris) que entrava na câmara escura e ao qual estava acoplado um cilindro óptico (papel agora assumido pelas objectivas).  

Protótipos da máquina fotográfica e sua evolução

Os primeiros modelos da máquina fotográfica vendidos comercialmente foram desenvolvidos por Alphonse Giroux, em 1839, e arquitectados por Daguerre, num visionário investimento que acabou por encetar uma nova tendência, o registo fotográfico de memórias para a posteridade.

História da fotografia -  Alphonse Giroux_1839

Máquina Fotográfica Alphonse Giroux_1839

Seguiu-se a criação de aparelhos cada vez mais complexos e miniaturizados, ao mesmo tempo que se melhorava a gama de maiores dimensões destinada sobretudo à observação científica de longitude, avanços só possíveis devido aos imensos progressos ópticos na origem das câmaras portáteis, estereoscópicas e panorâmicas. Foi na sequência dos sucessivos aperfeiçoamentos que surgiu a primeira máquina fotográfica de objectiva dupla (sistema constituído por duas lentes conexas que permitiam a focagem simultânea) e a mítica “câmara de fole” de utilização vertical e horizontal, invenções da autoria de R. & J. Beck (1880) e George Hare (1882), respectivamente.

Máquina fotográfica R&J Beck Pecrops 1880

Máquina fotográfica R&J Beck Pecrops 1880

George Hare 1882

George Hare 1882

Em 1888 é registada a patente da primeira máquina fotográfica “reflex”, designação atribuída pelo facto de o elemento de vidro no interior da máquina se mover automaticamente no período de exposição do objecto em foco. Embora essa propriedade tenha sido assumida por S. McKellen foi George Eastman quem acreditou no potencial das máquinas fotográficas “reflex” e lançou, ainda no curso daquele ano, a Kodak, câmara que permitia 100 disparos fixados em forma circular num rolo de filme de 6,35 cm que o próprio fabricante revelava e substituía antes de devolver o equipamento ao cliente com um novo cartucho preparado para mais uma centena de fotografias. A história da fotografia ganhava outra caminho, o da facilidade e portabilidade.

George Eastman Kodak 1888

George Eastman Kodak 1888

Próximo do final da década de 80 aposta-se em objectivas mais resistentes e mecanicamente mais sofisticadas que incluíam já obturadores de diafragma com lâminas sobrepostas e corpos metálicos, o que tornou a máquina fotográfica mais prática e modelar. Começam também a verificar-se consideráveis avanços técnicos ao nível óptico e ganham reconhecimento as objectivas Carl Zeiss e Carl Goerz, esta última integrada, em 1926, na Zeiss Ikon, por sua vez detida maioritariamente por aquele conglomerado empresarial (Carl Zeiss AG), o actual Grupo ZEISS, ainda hoje produtor de objectivas de elevada qualidade e algumas das melhores alternativas ópticas profissionais existentes no mercado.

Zeiss Ikon 1926

Zeiss Ikon 1926

À conquista do consumidor

A primeira máquina fotográfica de produção massificada, a Pocket Kodak, chegou às lojas em 1895. O pequeno dispositivo media somente dez centímetros em altura e ultrapassou o marco das 100 mil unidades vendidas em menos de um ano.

No início de 1900 a Kodak cria a Brownie, uma máquina de preço bastante acessível que oferecia fotografias quadradas de seis centímetros graças a um compacto rolo de filme e eficaz mecanismo interno de captura. Na referência às máquinas fotográficas marcantes pelo que representaram aquando do lançamento devem incluir-se ainda modelos como a Linhof (1910), Kodak Vest Pocket Autographic (1915) ou a Ermanox (1924), bem como os inovadores dispositivos de 35mm onde se enquadram a Debrie Sept (1921), Leica Simplex (1913) e Leica A (1925).

primeiras maquinas fotograficas anuncios

A conquista do consumidor só aconteceu, porém, em 1928, com a Rolleiflex TLR, câmara equipada com duas objectivas “gémeas” (daí o nome Twin-Lens Reflex) dispostas uma sob a outra, embora a “revolução” iniciada em 1933 pela Ihagee Vest-Pocket Exakta, a primeira SLR (single-lens reflex; reflex mono-objectiva) compacta, tenha muito provavelmente dado o maior estímulo comercial às câmaras fotográficas, especialmente com o aparecimento das SLR de 35mm.

Máquina fotográfica Rolleiflex

Máquina fotográfica Rolleiflex

Ihagee Vest-Pocket Exakta

Ihagee Vest-Pocket Exakta

O sucesso das SLR compactas nos circuitos profissionais só poderá eventualmente ser comparado ao que a célebre Polaroid fez pela fotografia amadora. Desenvolvida por Edwin H. Land e lançada em 1948, a máquina produzia fotografias instantâneas sem a necessidade de grandes conhecimentos e de forma intuitiva, numa abordagem simplificada que também já havia caracterizado os primeiros protótipos de SLR, sistema inventado em 1861 por Thomas Sutton. No mesmo ano de lançamento da Polaroid, a Nikon começa a apostar no desenvolvimento de SLR cada vez mais compactas e opticamente modeláveis, investimento que nas décadas de 50 e 60 torna a empresa numa das mais bem-sucedidas fabricantes de máquinas fotográficas.

Máquinas Fotográficas Polaroid

Máquinas Fotográficas Polaroid

A indústria abraça igualmente os avanços tecnológicos e são criados vários modelos adaptados a ambiente de estúdio, nomeadamente a sueca Hasselblad, aceite quase de imediato nos meios profissionais. O contínuo aperfeiçoamento dos sistemas fotográficos e as constantes melhorias no processo de fabrico dos equipamentos foram permitindo uma gradual simplificação de operação dos mesmos, menores custos de produção e consequente redução dos preços de venda ao consumidor, o que veio aumentar a margem de lucro das marcas, incentivando-as a investir parte das verbas nos respectivos departamentos de pesquisa e desenvolvimento. O resultado revelou-se em 1996 sob a forma de um novo sistema de captação fotográfica, o APS (Advanced Photo System), também conhecido por Futura (AgfaPhoto), Nexia (FujiFilm), Advantix (Kodak) e Centuria (Konica), e cuja principal vantagem residia no facto de oferecer qualidade de imagem superior aos tradicionais sensores de 35mm devido à natureza mais evoluída do processamento da imagem, apesar dos seus 24mm.

Emergência da era digital

Ainda que introduzido principalmente nas câmaras compactas, o formato APS acabou mais tarde por ser adoptado pela Canon, Minolta e Nikon em algumas das suas SLR, incluindo a Canon EOS IX, Minolta Vectis e Nikon Pronea. Essa estratégia viria a ser essencial para a geração seguinte de máquinas fotográficas, pois foi desse movimento inicial que se concebeu a fusão dos sensores APS com a aquisição fotográfica digital desde então disponível nas câmaras APS-C e APS-H. apsOs actuais sistemas APS-C e APS-H têm dimensões idênticas aos sensores APS analógicos, porém, existem ligeiras alterações físicas que exigem a devida conversão óptica dada a menor área activa do sensor e, consequentemente, do ângulo de visão menos amplo. Por sua vez, e sendo baseados na arquitectura de 24mm, há que ter em conta a escala dos sensores de 35mm (36×24), sobretudo nas máquinas fotográficas contemporâneas, já que nem todas seguem os tamanhos-padrão criados para os sensores utilizando, assim, indevidamente as terminologias APS-C, APS-H e APS-P. Enquanto os equipamentos full-frame (35mm) trabalham com um sensor de 36×24mm, comparável com o APS-H (30.2×16.7mm), APS-C (25.1×16.7mm) e APS-P (30.2×9.5mm) dos convencionais dispositivos de 24mm, boa parte das actuais câmaras APS digitais reduzem ainda mais os sensores e colocam-nos entre os 20.7×13.8mm e 28.7×19.1mm, motivo que leva à necessidade de considerar o chamado “crop factor” (factor multiplicador da distância focal) na hora de adquirir as objectivas e, claro, atender a essa questão quando se procura obter um determinado aspecto final. As máquinas fotográficas com sensores APS digitais são hoje em dia as mais populares, todavia, existe uma crescente atracção pelo Micro Four Thirds (MFT ou M4/3 Micro Quatro Terços), sistema apresentado em Agosto de 2008 pela Olympus e Panasonic, e baseado na arquitectura Four Thirds, da qual diverge simplesmente por não integrar pentaprisma ou espelho (daí outra das designações utilizadas para descrever este tipo de câmaras: mirrorless/sem espelho). Nessa diferença assenta a razão de ser possível conceber câmaras mais compactas e de menor distância entre sensor e encaixe da objectiva permitindo, assim, a utilização de objectivas mais leves e mais pequenas. O sensor-padrão das câmaras MFT (ou M4/3) possui um tamanho inferior (18×13.5mm; 17.3×13.0 de área activa) ao aplicado na máquina fotográfica APS-C. Logo, receberá menor quantidade de luz, não respondendo, por isso, tão bem em situações de luminosidade reduzida necessitando, portanto, de objectivas mais rápidas, ou seja, com abertura de numerador baixo (f/3 ou inferior) para máxima performance em ambientes mal iluminados. Contudo, dado que o sensor está mais próximo da encaixe da objectiva poderá virtualmente ser utilizada qualquer objectiva desde que exista um adaptador para MFT e, naturalmente, o corpo da objectiva tenha os controlos manuais das principais funções para alteração das mesmas sempre que tal se justifique. A recente adopção do sistema MFT pela Blackmagic e Kodak, que se associam assim à Panasonic e Olympus na produção de máquinas fotográficas com este tipo de sensor, alargará ainda mais o leque de opções amadoras e profissionais da gama de máquinas fotográficas (e câmaras de vídeo) já disponíveis neste formato. Enquanto isso, as duas empresas percursoras, bem como a Cosina/Voigtländer, Carl Zeiss, Sigma e Tamron, continuam a lançar objectivas MFT nativas, tal como o farão a Komamura, Astrodesign e Yasuhara. Isto não esquecendo, obviamente, o infindável número de objectivas clássicas existentes, muitas delas ainda hoje imbatíveis na qualidade de imagem oferecida, e às quais basta adicionar um simples adaptador MFT para usufruir da sua excelência óptica. O mercado coloca presentemente à disposição dos interessados uma vasta oferta de equipamentos que vai desde a máquina fotográfica compacta, munida de sensores igualmente compactos (1/1.7, 1/1.8, 1/2.3 e 1/2.5), às populares DSLR (ou SLR digitais), por seu lado subdividas em full-frame (36×24mm) e variações do formato APS com factor de conversão 1.6 (Canon) ou 1.5 (Epson, Fujifilm, Nikon, Pentax, Konica Minolta/Sony, Sigma e Samsung), passando pelas câmaras Four Thirds e MFT, Leica M8 e M8.2, Foveon X3 e Nikon CX. Perante tamanha diversidade, escolher a melhor alternativa dependerá somente do quão adequada seja essa escolha à finalidade. Determine, por isso, ao que se destina o equipamento e só depois inicie a fase da selecção.

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O (possível) futuro que se avizinha da máquina fotográfica

As actuais tendências digitais convergem no sentido da maior qualidade de imagem na máquina fotográfica – em gravação de vídeo e imagem fixa – cada vez mais compactas e isso o demonstram notáveis câmaras que nos surgem em corpos tão pequenos que mais parecem brinquedos. Contudo, as capacidades que possuem são tudo menos brincadeira de crianças e será provavelmente rumo à miniaturização de equipamentos com sensores maiores – a exemplo dos full-frame ou Super35 – que se estará a rumar. Existem limites óbvios quanto ao estado de compacto a que pode chegar a máquina fotográfica com formatos de amplo alcance devido às dimensões dos respectivos sensores e, claro, da robustez das objectivas nativas, o que não impedirá a eventual redução até um tamanho pouco maior que os sensores nelas incluídos. Entretanto os dispositivos MFT ganham o seu espaço no mercado, pois representam uma boa cedência em relação aos formatos APS-C/P/H, S35 e full-frame mas não tanto como a ligada aos minúsculos sensores 1/1.7, 1/1.8, 1/2.3 e 1/2.5, especialmente numa altura em que empresas como a Metabones lançam adaptadores electrónicos capazes de tornarem o ângulo de visão de máquinas MFT idêntico ao de um sensor S35 (Speed Booster MFT) e, ainda nessa nota, o Speed Booster S35, que permite a câmaras APS-C ou S35 captarem (quase) o mesmo panorama de uma full-frame. À semelhança de outras fases na história da máquina fotográfica vive-se actualmente um período fértil em avanços tecnológicos que permitem desenvolvimentos constantes e substanciais, pelo que é algo complicado tecer considerações quanto ao futuro ou antecipar cenários próximos. Contudo, uma realidade é inegável: a história da fotografia foi e é hoje em dia, provavelmente mais do que nunca, o centro dos esforços das empresas que no sector se dedicam à investigação da máquina fotográfica.

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